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Endometriose na Adolescência

Endometriose na Adolescência

A endometriose é uma doença ginecológica muito comum entre as mulheres na idade reprodutiva e apesar de ser muito mais observada na mulher adulta, também pode comprometer as adolescentes. Estima-se que 2/3 das adolescentes que apresentam dor pélvica crônica e dismenorreia (dor na menstruação) apresentam endometriose à laparoscopia e que 1/3 destas apresentam doença nas formas moderada e severa.

A causa da endometriose ainda é desconhecida, provavelmente multifatorial. Acredita-se hoje que exista uma tendência familiar para sua ocorrência, entretanto não se sabe explicar exatamente por que. Especula-se que possam haver fatores genéticos ou ambientais envolvidos. Esta incidência familiar tem sido observada entre irmãs, gêmeas e mãe/filha.

Os fatores de risco apontados para o surgimento precoce da doença em meninas e moças são:

- menarca precoce (1ª menstruação)

- obesidade (elevado índice de massa corpórea)- pelo alto índice de hormônios esteróides circulantes

Nas jovens com síndrome dos ovários policísticos (anovulação + resistência à ação da insulina + síndrome metabólica + hiperinsulinemia) a incidência da doença costuma ser menor nos achados de laparoscopia.

Os sintomas podem ser diferentes das mulheres adultas.

Na mulher adulta a dor costuma preceder a menstruação e piora durante o ciclo menstrual.

Na adolescente a dor pode ser cíclica (relacionada ao período da menstruação) ou acíclica, sem relação com o ciclo menstrual.

Os sintomas mais comuns são: DOR PÉLVICA CRÔNICA E DOR DURANTE A MENSTRUAÇÃO. Motivos frequentes para faltarem na escola e no trabalho.

Em um estudo de Laufer et al, 1997

- 9,4% das adolescentes tinham dor cíclica durante a menstruação

- 62,5% das adolescentes tinham dor cíclica e acíclica

- 28,1% das adolescentes tinham apenas dor acíclica

A dor costuma ser imprevisível e intermitente ou ainda ser contínua durante todo o ciclo menstrual. Pode ser descrita como persistente, em pontadas, latejante ou aguda e COSTUMA PIORAR COM O EXERCÍCIO FÍSICO.

Em relação ao estágio da doença observado na laparoscopia de acordo com a classificação da ASRM, observou-se:

- doença mínima: 50%

- doença leve: 27%

- doença moderada: 18%

- doença severa: 14%

É importante frisar que entre as meninas com doença severa foram identificados casos de comprometimento do retossigmóide, apêndice, vagina, região retrocervical e dos ureteres.

Devido ao número pequeno de estudos sobre a real incidência da endometriose entre adolescentes, ainda não se conhece as vantagens de se operar precocemente a doença e qual o impacto deste tratamento cirúrgico no futuro reprodutivo destas moças. Sabe-se porém, que quando indicada a laparoscopia nesta idade tenra, ela deve ser não apenas diagnóstica mas também para tratamento e remoção completa dos focos. Isto sempre com o intuito de se evitar MÚLTIPLAS INTERVENÇÕES CIRÚRGICAS com inúmeros prejuízos de naturezas diversas para as pacientes. A redução da reserva ovariana é uma das principais consequências negativas das múltiplas cirúrgias, levando por vezes mulheres jovens a necessitarem de doação de óvulos para conseguirem realizar o sonho da maternidade.

É de fundamental importância que as adolescentes e seus pais sejam informados sobre os riscos dos tratamentos cirúrgicos e suas implicações no futuro reprodutivo e qualidade de vida das pacientes.

O acompanhamento destas moças é também crucial com a criação de um diário para documentação das características da dor, sua intensidade, piora ao longo do tempo, tratamentos realizados e seus resultados. Estes fatores serão de extrema importância ao longo de sua vida e para o momento em que optarem pela maternidade.

Na prática clínica, as adolescentes com endometriose costumam ser tratadas com anti-inflamatórios não hormonais e uso de pílulas anticoncepcionais. Não existem estudos a respeito dos resultados desta prática e se contribuem para diminuir a evolução da doença. A cirurgia de laparoscopia tem sido reservada aos casos de dor pélvica crônica de forte intensidade refratária a estes tratamentos. Em minha experiência, acompanhando diariamente pacientes inférteis, percebo que o uso prolongado de anticoncepcionais (de 10 a 20 anos) não previne o crescimento das lesões de endometriose profunda, que continuam se desenvolvendo apesar da evidente melhora clínica, com redução das cólicas e do desconforto pélvico.

Para finalizar transcrevo um pequeno trecho que um outro artigo publicado no Journal of Pediatric & Adolescent Gynecology por Jennifer E.O´Neil, PhD, 2011, que achei bem apropriado para reflexão:

"I see adolescent girls as a vunerable population that often lacks the experience and confidence to advocate for their own diagnosis and treatment. Too often the endometriosis symptoms of adolescent girls are not taken seriously by their doctors, not only leading to continued physical pain but also damaging their already fragile self-esteem. The onus is therefore on clinicians to be knowledgeable about the symptoms of and treatments for endometriosis to ensure that these girls are correctly diagnosed and receive treatments that control their pain."